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Arritmia Cardíaca: tipos, sintomas, causas e tratamento

Arritmia Cardíaca: O Guia Completo sobre Causas, Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

O coração humano bate, em média, cerca de 100 mil vezes por dia, mantendo um ritmo preciso e coordenado que garante o fluxo sanguíneo adequado para todos os órgãos do corpo. Quando esse ritmo sofre alterações — seja batendo rápido demais, devagar demais ou de forma irregular — estamos diante de uma arritmia cardíaca. Trata-se de uma das condições cardiovasculares mais comuns, afetando milhões de brasileiros e representando uma parcela significativa dos atendimentos em emergências cardiológicas.

Embora muitas arritmias sejam benignas e não representem risco imediato à saúde, outras podem ser potencialmente fatais se não forem diagnosticadas e tratadas adequadamente. Compreender o que é uma arritmia, seus diferentes tipos, causas e opções de tratamento é fundamental para que o paciente possa buscar ajuda médica no momento certo e adotar medidas preventivas eficazes.

Neste artigo, vamos abordar de forma detalhada todos os aspectos relacionados às arritmias cardíacas, desde o funcionamento normal do sistema elétrico do coração até as opções terapêuticas mais modernas disponíveis atualmente. Consulte termos médicos relacionados sempre que necessário para aprofundar seu entendimento.

O Que É Arritmia Cardíaca?

Para entender o que é uma arritmia cardíaca, é necessário primeiro compreender como funciona o sistema elétrico do coração. O coração não é apenas uma bomba muscular — ele possui um sofisticado sistema de condução elétrica que coordena cada batimento de forma precisa e ritmada.

O Sistema Elétrico Normal do Coração

Cada batimento cardíaco se inicia em uma pequena região localizada no átrio direito chamada nó sinusal (ou nó sinoatrial — SA). O nó sinusal funciona como o “marca-passo natural” do coração, gerando impulsos elétricos regulares que determinam a frequência cardíaca. Em repouso, o nó sinusal dispara entre 60 e 100 vezes por minuto em adultos saudáveis.

A partir do nó sinusal, o impulso elétrico se propaga pelos átrios (câmaras superiores do coração), fazendo com que se contraiam e empurrem o sangue para os ventrículos (câmaras inferiores). O sinal elétrico então chega ao nó atrioventricular (AV), localizado na junção entre os átrios e os ventrículos. O nó AV funciona como uma espécie de “estação de retransmissão”, realizando uma breve pausa no impulso elétrico — essa pausa é essencial para que os ventrículos tenham tempo de se encher completamente de sangue antes de se contraírem.

Após o nó AV, o impulso segue pelo feixe de His e pelas fibras de Purkinje, distribuindo-se rapidamente pelos ventrículos e provocando sua contração coordenada, que ejeta o sangue para os pulmões e para o restante do corpo.

Quando o Ritmo Se Altera

Uma arritmia cardíaca ocorre quando há qualquer distúrbio nesse sistema de condução elétrica. Isso pode acontecer porque o nó sinusal gera impulsos em frequência inadequada, porque o impulso segue caminhos anormais dentro do coração, porque surgem focos elétricos extras em locais inapropriados, ou porque há bloqueios na condução do sinal elétrico.

O resultado pode ser um coração que bate rápido demais (taquicardia), devagar demais (bradicardia) ou de maneira irregular. Dependendo do tipo e da gravidade, a arritmia pode ser imperceptível, causar sintomas leves ou representar uma emergência médica com risco de vida.

Tipos de Arritmia Cardíaca

As arritmias cardíacas são classificadas de diversas formas — pela sua origem (atrial ou ventricular), pela frequência cardíaca resultante (taquicardias ou bradicardias) e pelo mecanismo eletrofisiológico envolvido. A seguir, apresentamos os principais tipos:

Taquicardias (Frequência Cardíaca Elevada)

Nas taquicardias, o coração bate acima de 100 batimentos por minuto (bpm) em repouso. Os principais tipos incluem:

  • Taquicardia Supraventricular (TSV): Grupo de arritmias que se originam acima dos ventrículos, ou seja, nos átrios ou no nó AV. A TSV se manifesta como episódios súbitos de batimentos cardíacos rápidos, geralmente entre 150 e 250 bpm, que podem durar de segundos a horas. Em muitos casos, a TSV não é perigosa, mas pode causar grande desconforto e ansiedade. Alguns subtipos comuns são a taquicardia por reentrada nodal (TRNAV) e a taquicardia associada a vias acessórias, como na síndrome de Wolff-Parkinson-White.
  • Fibrilação Atrial (FA): É a arritmia sustentada mais comum em todo o mundo. Na fibrilação atrial, os átrios não se contraem de forma organizada — em vez disso, apresentam atividade elétrica caótica e irregular, com frequências atriais que podem ultrapassar 300 impulsos por minuto. Como resultado, os ventrículos batem de forma irregular e frequentemente acelerada. A FA aumenta significativamente o risco de formação de coágulos sanguíneos nos átrios, podendo levar a acidente vascular cerebral (AVC). É mais prevalente em idosos e frequentemente associada a hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e doenças da válvula mitral.
  • Taquicardia Ventricular (TV): Origina-se nos ventrículos e se caracteriza por batimentos rápidos e regulares, geralmente acima de 120 bpm. A TV pode ser sustentada (durando mais de 30 segundos) ou não sustentada. É considerada uma arritmia potencialmente grave, pois pode comprometer a capacidade do coração de bombear sangue adequadamente e pode evoluir para fibrilação ventricular. A TV costuma estar associada a doenças cardíacas estruturais, como infarto prévio ou cardiomiopatias.
  • Fibrilação Ventricular (FV): É a arritmia mais perigosa e a principal causa de morte súbita cardíaca. Na FV, os ventrículos apresentam atividade elétrica totalmente desorganizada, tremulando de forma caótica em vez de se contraírem efetivamente. O coração deixa de bombear sangue, levando à perda de consciência em segundos e à morte em poucos minutos se não houver desfibrilação imediata. A FV constitui uma emergência médica absoluta.

Bradicardias (Frequência Cardíaca Baixa)

Nas bradicardias, o coração bate abaixo de 60 bpm. Embora atletas e pessoas fisicamente ativas possam ter frequências cardíacas baixas de forma fisiológica e saudável, em outros contextos a bradicardia pode indicar problemas no sistema de condução elétrica:

  • Doença do Nó Sinusal (Síndrome do Nó Sinusal Doente): Ocorre quando o nó sinusal não funciona adequadamente, gerando impulsos de forma lenta, irregular ou com pausas prolongadas. Pode causar alternância entre bradicardia e taquicardia (síndrome bradicardia-taquicardia). É mais comum em idosos e frequentemente requer implante de marca-passo.
  • Bloqueio Atrioventricular (BAV): Acontece quando o impulso elétrico é retardado ou bloqueado no nó AV. Existem três graus de bloqueio: o BAV de 1° grau (retardo simples, geralmente benigno), o BAV de 2° grau (alguns impulsos são bloqueados) e o BAV de 3° grau, também chamado de bloqueio completo, no qual nenhum impulso atrial chega aos ventrículos. O BAV de 3° grau é uma condição grave que quase sempre requer implante de marca-passo definitivo.

Batimentos Prematuros (Extrassístoles)

São batimentos extras que ocorrem antes do momento esperado no ciclo cardíaco. São extremamente comuns e, na grande maioria dos casos, benignos:

  • Contração Atrial Prematura (CAP ou extrassístole atrial): Origina-se nos átrios. É muito frequente em pessoas saudáveis e raramente requer tratamento. Pode ser percebida como uma “falha” ou “pulo” no batimento cardíaco.
  • Contração Ventricular Prematura (CVP ou extrassístole ventricular): Origina-se nos ventrículos. Também é bastante comum na população geral. Quando ocorrem com pouca frequência e em corações estruturalmente normais, as CVPs são consideradas benignas. Porém, quando são muito frequentes (mais de 10-15% dos batimentos totais em 24 horas) ou ocorrem em padrões específicos, podem exigir investigação mais aprofundada e, eventualmente, tratamento.

Causas e Fatores de Risco

As arritmias cardíacas podem ter múltiplas causas e fatores contribuintes. Em alguns casos, a arritmia surge em um coração estruturalmente normal; em outros, está associada a doenças cardíacas preexistentes ou condições sistêmicas. Os principais fatores incluem:

  • Doença arterial coronariana e infarto do miocárdio: O dano ao músculo cardíaco causado por um infarto pode criar cicatrizes que alteram a condução elétrica, predispondo a arritmias ventriculares graves.
  • Hipertensão arterial: A pressão alta crônica leva ao espessamento das paredes do coração (hipertrofia ventricular), alterando o substrato elétrico e aumentando o risco de fibrilação atrial e outras arritmias.
  • Cardiomiopatias: Doenças que afetam o músculo cardíaco, como cardiomiopatia dilatada, hipertrófica ou restritiva, são causas importantes de arritmias.
  • Doenças valvares: Alterações nas válvulas cardíacas, especialmente a estenose ou insuficiência mitral, podem provocar dilatação atrial e favorecer a fibrilação atrial.
  • Distúrbios eletrolíticos: Alterações nos níveis de potássio, magnésio, cálcio e sódio no sangue podem afetar diretamente a atividade elétrica do coração.
  • Disfunção tireoidiana: Tanto o hipertireoidismo quanto o hipotireoidismo podem desencadear arritmias, sendo a fibrilação atrial particularmente associada ao excesso de hormônios tireoidianos.
  • Consumo excessivo de álcool e cafeína: O uso abusivo de álcool é um gatilho reconhecido de fibrilação atrial (fenômeno conhecido como “holiday heart syndrome”). A cafeína em excesso pode desencadear extrassístoles.
  • Tabagismo: A nicotina e outras substâncias do cigarro aumentam a irritabilidade do músculo cardíaco.
  • Uso de drogas ilícitas: Cocaína e anfetaminas são causas importantes de arritmias ventriculares graves e morte súbita em jovens.
  • Apneia obstrutiva do sono: Condição frequentemente subdiagnosticada que está fortemente associada à fibrilação atrial.
  • Medicamentos: Diversos fármacos podem prolongar o intervalo QT e predispor a arritmias perigosas, incluindo alguns antibióticos, antidepressivos e antiarrítmicos.
  • Fatores genéticos: Algumas arritmias têm base hereditária, como a síndrome do QT longo, a síndrome de Brugada e a cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito.
  • Idade avançada: O envelhecimento está associado a alterações degenerativas no sistema de condução e aumento da prevalência de fibrilação atrial.
  • Estresse emocional e físico intenso: Situações de grande estresse podem desencadear arritmias em indivíduos predispostos.

Sintomas da Arritmia Cardíaca

Os sintomas de uma arritmia cardíaca variam enormemente dependendo do tipo, da frequência cardíaca resultante, da duração do episódio e da presença de doença cardíaca subjacente. Algumas pessoas com arritmias são completamente assintomáticas, enquanto outras podem apresentar sintomas incapacitantes ou até mesmo fatais.

Palpitações

As palpitações são o sintoma mais comumente relatado. O paciente descreve uma sensação de que o coração está “batendo forte”, “acelerado”, “falhando” ou “pulando batimentos”. As palpitações podem ser breves e esporádicas (como nas extrassístoles) ou sustentadas e intensas (como na fibrilação atrial ou na taquicardia supraventricular). É importante ressaltar que palpitações nem sempre indicam uma arritmia verdadeira — a ansiedade, por exemplo, pode causar uma percepção aumentada dos batimentos cardíacos normais.

Síncope (Desmaio)

A síncope ocorre quando a arritmia compromete de forma significativa o débito cardíaco, reduzindo o fluxo sanguíneo para o cérebro. Isso pode acontecer tanto em bradicardias graves (pausas prolongadas ou bloqueios avançados) quanto em taquicardias muito rápidas. A síncope relacionada a arritmias costuma ser súbita, sem pródromos claros, e a recuperação também é rápida após a restauração do ritmo. A síncope cardíaca é sempre um sinal de alerta que demanda investigação urgente.

Tontura e Vertigem

Sensações de tontura, cabeça leve ou quase-desmaio (pré-síncope) são frequentes em diversos tipos de arritmia. Esses sintomas refletem uma redução transitória do fluxo sanguíneo cerebral e podem preceder um episódio de síncope.

Dor ou Desconforto Torácico

Algumas arritmias, especialmente as taquicardias rápidas, podem causar dor ou pressão no peito. Isso ocorre porque o coração acelerado demanda mais oxigênio, e se houver doença coronariana associada, pode haver isquemia miocárdica. A dor torácica associada a arritmias deve sempre ser avaliada para descartar infarto agudo do miocárdio.

Fadiga e Falta de Ar

A fadiga crônica e a dispneia (falta de ar) podem ser manifestações de arritmias persistentes, como a fibrilação atrial crônica. O ritmo irregular e frequentemente acelerado compromete a eficiência do bombeamento cardíaco, reduzindo a capacidade de exercício e a tolerância a esforços do dia a dia.

Outros Sintomas

  • Ansiedade e sensação de apreensão
  • Sudorese fria
  • Fraqueza generalizada
  • Poliúria (aumento do volume urinário) — pode ocorrer após episódios de taquicardia supraventricular, pela liberação de peptídeo natriurético atrial

Diagnóstico da Arritmia Cardíaca

O diagnóstico preciso de uma arritmia cardíaca é fundamental para definir o tratamento adequado. A avaliação envolve uma combinação de história clínica detalhada, exame físico e exames complementares específicos:

Eletrocardiograma (ECG)

O eletrocardiograma é o exame inicial e mais importante na avaliação de arritmias. Trata-se de um registro gráfico da atividade elétrica do coração, obtido por meio de eletrodos colocados na superfície do corpo. O ECG permite identificar o tipo de arritmia, sua origem e eventuais alterações associadas (como isquemia ou hipertrofia). Sua principal limitação é que registra apenas um momento pontual — se o paciente não estiver em arritmia durante o exame, o ECG pode ser normal.

Holter 24 Horas

O Holter é um dispositivo portátil que registra continuamente o ECG durante 24 a 72 horas (ou mais, em modelos prolongados). O paciente leva o aparelho para casa e realiza suas atividades habituais enquanto o dispositivo grava todos os batimentos cardíacos. É especialmente útil para detectar arritmias intermitentes, correlacionar sintomas com alterações de ritmo e avaliar a resposta ao tratamento.

Monitor de Eventos

Os monitores de eventos são dispositivos que o paciente pode usar por semanas ou até meses. Diferentemente do Holter, que registra continuamente, o monitor de eventos é ativado pelo próprio paciente quando sente sintomas, ou automaticamente quando detecta uma arritmia. Existem também monitores implantáveis subcutâneos (loop recorders) que podem permanecer ativos por até três anos, sendo extremamente úteis na investigação de síncopes inexplicadas ou arritmias muito esporádicas.

Estudo Eletrofisiológico (EEF)

O estudo eletrofisiológico é um procedimento invasivo, realizado em laboratório de hemodinâmica, no qual cateteres são introduzidos através de veias ou artérias e posicionados em locais estratégicos dentro do coração. Esses cateteres permitem registrar a atividade elétrica intracardíaca com grande precisão e, quando necessário, induzir arritmias de forma controlada para estudo. O EEF é fundamental para mapear o mecanismo exato da arritmia e, frequentemente, é realizado junto com a ablação por cateter como procedimento diagnóstico e terapêutico simultâneo.

Outros Exames Complementares

  • Ecocardiograma: Avalia a estrutura e a função do coração, identificando doenças valvares, cardiomiopatias ou outras alterações que possam causar ou agravar arritmias.
  • Teste ergométrico: Avalia o comportamento do ritmo cardíaco durante o esforço físico.
  • Ressonância magnética cardíaca: Oferece imagens detalhadas do músculo cardíaco, podendo identificar áreas de fibrose ou cicatriz que sirvam de substrato para arritmias.
  • Exames laboratoriais: Dosagem de eletrólitos, função tireoidiana e marcadores cardíacos.

Tratamento da Arritmia Cardíaca

O tratamento da arritmia cardíaca depende do tipo específico de arritmia, de sua gravidade, dos sintomas apresentados e da presença de doenças cardíacas associadas. As opções terapêuticas vão desde a simples observação até procedimentos invasivos complexos. Agende sua avaliação cardiológica para discutir o melhor plano de tratamento para o seu caso.

Medicamentos Antiarrítmicos

Os medicamentos antiarrítmicos atuam modificando as propriedades elétricas do coração para prevenir ou interromper arritmias. Existem diversas classes de antiarrítmicos, cada uma com mecanismos de ação específicos:

  • Betabloqueadores (metoprolol, atenolol, bisoprolol): Reduzem a frequência cardíaca e a excitabilidade do coração. São frequentemente usados no controle da frequência em fibrilação atrial e na prevenção de taquicardias.
  • Bloqueadores dos canais de cálcio (verapamil, diltiazem): Também auxiliam no controle da frequência cardíaca, especialmente na fibrilação atrial.
  • Antiarrítmicos de classe I (propafenona, flecainida): Usados para manter o ritmo sinusal em pacientes com fibrilação atrial paroxística.
  • Amiodarona: Antiarrítmico de amplo espectro, eficaz contra diversas taquicardias atriais e ventriculares, porém com perfil significativo de efeitos colaterais em uso prolongado.
  • Anticoagulantes: Embora não sejam antiarrítmicos propriamente ditos, os anticoagulantes (varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana) são essenciais na fibrilação atrial para prevenir a formação de coágulos e reduzir o risco de AVC.

Cardioversão Elétrica

A cardioversão elétrica consiste na aplicação de um choque elétrico sincronizado ao coração, com o objetivo de restaurar o ritmo normal. É realizada sob sedação e é particularmente utilizada em casos de fibrilação atrial, flutter atrial e outras taquicardias que não respondem ao tratamento medicamentoso. A cardioversão é diferente da desfibrilação — enquanto a cardioversão é um procedimento eletivo e sincronizado, a desfibrilação é uma medida de emergência usada em parada cardíaca por fibrilação ventricular.

Ablação por Cateter

A ablação por cateter é um procedimento minimamente invasivo que visa destruir (ablacionar) o tecido cardíaco responsável pela arritmia. Utiliza-se energia de radiofrequência ou crioterapia (frio extremo) para criar pequenas cicatrizes no coração que bloqueiam os circuitos elétricos anormais. A ablação apresenta taxas de sucesso elevadas para diversas arritmias, incluindo taquicardia supraventricular, flutter atrial, fibrilação atrial e algumas formas de taquicardia ventricular. Em muitos casos, a ablação pode ser curativa, eliminando a necessidade de medicamentos a longo prazo.

Marca-passo Cardíaco

O marca-passo é um dispositivo eletrônico implantado sob a pele do tórax, conectado ao coração por fios (eletrodos), cuja função é gerar impulsos elétricos quando o coração bate de forma inadequadamente lenta. É o tratamento de escolha para bradicardias sintomáticas, como a doença do nó sinusal e o bloqueio atrioventricular avançado. Os marca-passos modernos são sofisticados, podendo ajustar a frequência cardíaca conforme a atividade física do paciente e armazenar dados sobre o ritmo cardíaco para análise médica posterior.

Cardioversor-Desfibrilador Implantável (CDI)

O CDI é um dispositivo semelhante ao marca-passo, porém com a capacidade adicional de detectar e tratar automaticamente arritmias ventriculares graves (taquicardia ventricular e fibrilação ventricular) por meio de choques elétricos internos. É indicado para pacientes com alto risco de morte súbita cardíaca, como aqueles com fração de ejeção muito reduzida, sobreviventes de parada cardíaca ou portadores de certas condições genéticas arritmogênicas. O CDI é um dos avanços mais significativos na prevenção da morte súbita.

Quando Procurar Emergência

Embora muitas arritmias sejam benignas, certas situações exigem atendimento médico de emergência imediato. Procure o pronto-socorro se apresentar:

  1. Palpitações intensas acompanhadas de dor no peito, falta de ar grave ou desmaio
  2. Perda de consciência súbita e inexplicada
  3. Frequência cardíaca muito elevada (acima de 150 bpm) em repouso, que não cede espontaneamente
  4. Frequência cardíaca muito baixa (abaixo de 40 bpm) acompanhada de tontura, fraqueza ou confusão mental
  5. Sensação de que o coração parou de bater por vários segundos
  6. Palpitações associadas a fraqueza intensa em um lado do corpo, dificuldade de fala ou alteração visual (sinais de AVC)

Se presenciar alguém em parada cardíaca (pessoa inconsciente, sem respiração e sem pulso), ligue imediatamente para o SAMU (192) e inicie a reanimação cardiopulmonar (RCP) até a chegada do socorro.

Perguntas Frequentes sobre Arritmia Cardíaca

Arritmia cardíaca pode matar?

A maioria das arritmias é benigna e não oferece risco de vida. No entanto, algumas arritmias ventriculares, como a taquicardia ventricular sustentada e a fibrilação ventricular, podem ser fatais se não tratadas imediatamente. A fibrilação atrial, embora geralmente não seja letal por si só, aumenta significativamente o risco de AVC se não for adequadamente tratada com anticoagulantes. Por isso, toda arritmia deve ser avaliada por um cardiologista para determinar seu risco e definir a necessidade de tratamento.

Extrassístoles são perigosas?

Na grande maioria dos casos, as extrassístoles (tanto atriais quanto ventriculares) são benignas, especialmente quando ocorrem em corações estruturalmente normais. Muitas pessoas saudáveis apresentam centenas ou até milhares de extrassístoles por dia sem qualquer consequência. No entanto, quando são muito frequentes, ocorrem em salvas, estão associadas a sintomas importantes ou surgem no contexto de doença cardíaca, é necessário investigação mais detalhada. O cardiologista avaliará a necessidade de tratamento caso a caso.

Café causa arritmia?

A relação entre cafeína e arritmias é mais nuançada do que se pensava anteriormente. Estudos recentes mostram que o consumo moderado de café (até 3-4 xícaras por dia) não aumenta o risco de arritmias na maioria das pessoas e pode até ter efeitos cardiovasculares benéficos. No entanto, indivíduos particularmente sensíveis à cafeína podem experimentar palpitações e extrassístoles após o consumo. Para pacientes com arritmias já diagnosticadas, a recomendação deve ser individualizada pelo cardiologista.

Fibrilação atrial tem cura?

A fibrilação atrial pode ser controlada com sucesso em muitos pacientes, especialmente quando diagnosticada precocemente. A ablação por cateter, particularmente o isolamento das veias pulmonares, apresenta taxas de sucesso expressivas, com muitos pacientes mantendo-se livres de arritmia a longo prazo. No entanto, a fibrilação atrial é uma doença progressiva, e recidivas podem ocorrer, eventualmente necessitando de novos procedimentos ou medicamentos. O tratamento precoce e o controle dos fatores de risco (como hipertensão, obesidade e apneia do sono) são fundamentais para melhorar os resultados.

É seguro fazer exercícios físicos com arritmia?

A resposta depende do tipo de arritmia e da condição cardíaca do paciente. Para muitas arritmias benignas, como extrassístoles isoladas ou fibrilação atrial com frequência cardíaca controlada, a atividade física regular é não apenas permitida, mas recomendada como parte do tratamento. No entanto, algumas arritmias podem ser agravadas pelo exercício, e certas condições genéticas (como a síndrome do QT longo ou a cardiomiopatia hipertrófica) requerem restrições específicas. É essencial obter liberação e orientação médica antes de iniciar ou retomar atividades físicas.

Arritmia cardíaca é hereditária?

Algumas arritmias possuem componente genético importante. Condições como a síndrome do QT longo, a síndrome de Brugada, a cardiomiopatia hipertrófica e a cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito são doenças hereditárias que predispõem a arritmias graves e morte súbita. Se um familiar próximo teve morte súbita cardíaca ou foi diagnosticado com uma dessas condições, é recomendável que os demais membros da família realizem avaliação cardiológica com eletrocardiograma e, quando indicado, testes genéticos.

Conclusão

A arritmia cardíaca é uma condição extremamente diversa, que abrange desde alterações benignas e assintomáticas até emergências médicas com risco de morte. O avanço das técnicas diagnósticas e terapêuticas nas últimas décadas transformou significativamente o prognóstico de pacientes com arritmias — procedimentos como a ablação por cateter e dispositivos como o CDI salvam milhares de vidas todos os anos.

O passo mais importante é nunca ignorar sintomas como palpitações persistentes, desmaios ou tontura inexplicada. Uma avaliação cardiológica completa permite identificar o tipo de arritmia, avaliar seu risco e definir a estratégia de tratamento mais adequada. Com o diagnóstico correto e o tratamento apropriado, a maioria dos pacientes com arritmias cardíacas pode levar uma vida plena e ativa.

Consulte termos médicos relacionados para aprofundar seu conhecimento sobre arritmias e outras condições cardiovasculares.

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Prof. Dra. Marisa Amato

Prof. Dra. Marisa Amato

Especialista em Cardiologia pela Associação Médica Brasileira. Mestrado em Ciências, na área de Fisiologia Humana, pela Universidade de São Paulo,1982. Doutorado em Medicina pela Universidade de São Paulo,1988. Bolsista de pós doutorado do governo alemão pela Fundação Alexander von Humboldt, em Hamburg, 1992/1993. Professora Livre Docente de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1998. Artigo Científico com repercussão internacional, publicado na Heart British Medical Journal, servindo de referência para o Consenso Europeu de Cardiopatias Valvares, 2001. MBA em Economia e Gestão em Saúde pela Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo,em 2005.Presidenta da Academia de Medicina de São Paulo, biênio 1997/1998. Membro do Conselho de Cultura da Associação Paulista de Medicina, biênio 1999/2002. Membro do Conselho de Economia, Sociologia e Política da Federação do Comércio do Estado de São Paulo do Sesc e do Senac, desde março de 2008.Presidenta do Clube Humboldt do Brasil, eleita em novembro de 2008. CRM: 30400 RTE 056950